Auguste Saint-Hilaire

 

 

Auguste Saint-Hilaire (1820)

 

Auguste Saint-Hilaire foi um naturalista francês que por volta de 1820 percorreu a pé e no lombo de mulas a região da Serra da Canastra. Viu e descreveu as belezas do Vale da São Francisco, entre as Serras da Canastra e Babilônia, onde hoje se localizam a cidade de Vargem Bonita e a vila de São José do Barreiro, e fez questão de conhecer pessoalmente a já famosa Cachoeira da Mata da Casca D'Anta, hoje simplesmente Casca D'Anta.

 

Veja abaixo a descrição da Cachoeira Casca D'Anta feita por Saint-Hilaire em 1820:

 

"Embrenhamo-nos na mata e dentro em pouco começamos a ouvir o barulho da cachoeira. Pelas informações que me tinham dado havia poucos instantes, eu sabia que ela se despencava do lado meridional da Serra da Canastra. De repente avistei o seu começo e logo em seguida pude vê-la em toda sua extensão, ou pelo menos o máximo que podia ser visto do ponto onde nos achávamos. O espetáculo arrancou de José Mariano e de mim um grito de admiração. No ponto onde a água cai há uma depressão no cume do paredão de rochas, formando um sulco largo e profundo que vai descendo em zigue-zague até uns dois terços da altura da pedreira, segundo nos pareceu. De um ponto ainda bastante elevado, onde termina a fenda, despeja-se majestosamente uma cortina de água, cujo volume é maior em um dos lados. O terreno que se estende abaixo da cascata é bastante irregular, e um outeiro coberto de verdejante relva esconde a parte inferior da cortina de água. Do lado direito desce até ela uma mata de um verde sombrio. É essa a nascente do S. Francisco."

 

“Por volta das onze horas da manhã partimos, José Mariano e eu, da casa de Lopes e seguimos rumo à cachoeira. Depois de atravessarmos uma mata cerrada seguindo uma trilha mal aberta, com moitas de bambus atrapalhando a nossa marcha, alcançamos as margens do S. Francisco, num ponto que fica mais ou menos a meia légua de distância de sua nascente e onde sua largura é de vinte ou trinta passos. Suas águas, de uma limpidez e frescura extraordinárias, têm pouca profundidade, permitindo que se vejam no fundo do seu leito os mais insignificantes seixos. Descalcei-me para atravessar o rio, e como seu fundo é cheio de pedras escorregadias, não foi sem certa dificuldade que consegui chegar ao outro lado. Lá encontramos uma mata mais fechada do que a anterior, e Manuel Lopes, que ia na frente, via-se obrigado a cada passo a cortar os galhos de árvores que impediam nossa marcha. Logo depois atravessamos de novo o S. Francisco e em seguida um capinzal. Mais adiante as margens do rio estavam de tal forma obstruídas pela vegetação que tivemos de caminhar sobre o seu leito. Até o pé da cachoeira ele é forrado de pedras grandes e escorregadias, que ora ficam cobertas pela água, ora afloram à superfície, e me teria sido impossível andar sobre elas sem a ajuda constante de Manuel Lopes e José Mariano. Finalmente, depois de uma caminhada extremamente penosa, alcançamos o pé da Cachoeira da Casca D’Anta, que já vínhamos avistando de longe. A casa de Felisberto ficava distante da queda de água mais de um quarto de légua, e de lá eu só conseguia vê-la de maneira imprecisa. Vou descreve-la tal como apareceu aos meus olhos, quando dela me aproximei o máximo que era possível. Acima dela vê-se, como já disse, uma larga fenda na rocha. No ponto onde caem as águas as pedras formam uma concavidade pouco pronunciada. Da casa de Felisberto a cachoeira me pareceu ter apenas um terço da altura das rochas, mas após tê-la observado de diversos ângulos creio poder afirmar que sua extensão é de dois terços dessa altura. Não a medi, mas de acordo com o cálculo provavelmente bastante preciso de Eschwege, ela deve ter uns 203 metros aproximadamente. Ela não se precipita das rochas com violência, exibindo, pelo contrário, um belo lençol de água branca e espumosa que se expande lentamente e parece formado por grandes flocos de neve. As águas caem numa bacia semicircular, rodeada de pedras amontoadas desordenadamente, de onde descem por uma encosta escarpada para formar o famoso Rio S. Francisco, que tem quase 700 léguas de extensão e recebe uma infinidade de outros rios. O estrondo que as águas da Cachoeira da Casca D’Anta fazem ao cair é ouvido de longe, e a névoa extremamente fina que elas produzem é levada a uma grande distância pela deslocação de ar causada pela queda. Dos dois lados da cachoeira as rochas são permanentemente úmidas e, embora talhadas a pique, mostram-se cobertas por uma relva muito verde e fina, que raramente deixa entrever a cor acinzentada da pedra. Abaixo das rochas o terreno vai em declive até o rio, e no trecho mais próximo da cachoeira sua vegetação é composta só de arbustos. Mais adiante, porém, ele já se apresenta coberto de densas matas, onde se vêem numerosas palmeiras de troncos delgados e pequena altura. O verdor das plantas é de um viço extraordinário, que a proximidade das águas se encarrega de conservar. Defronte da cachoeira o horizonte é limitado por montanhas coroadas de rochas, que pertencem à Serra do Rio Grande. Para ter uma idéia de como é fascinante a paisagem ali, o leitor deve imaginar estar vendo em conjunto tudo o que a Natureza tem de mais encantador: um céu de um azul puríssimo, montanhas coroadas de rochas, uma cachoeira majestosa, águas de uma limpidez sem par, o verde cintilante das folhagens e, finalmente, as matas virgens, que exibem todos os tipos de vegetação tropical.”

 

(Auguste Saint-Hilaire, Viagem às Nascentes do Rio São Francisco)

 

 


 

INICIAL | O PARQUE | O RIO  | HOSPEDAGEM | ALIMENTAÇÃO | COMO CHEGAR

   GEOGRAFIA | NOTÍCIAS | IMAGENS | CONTATO

 contato@canastra.com.br

 


Criação: 15/10/2010
Atualizada em 28/12/2010


© 2010-2010  Tamanduá Ecoturismo Ltda.  Todos os direitos reservados

 

by Anael de Souza & Maurício Costa
contato@canastra.com.br